29/04/2008
Entrevista Jornal Mundo Anhembi Morumbi
Fagner Branco
São Paulo

Jornal Mundo - Se formou em qual curso? Em que ano?

Dimitri Kozma - Designer Digital, na época se chamava Educação Artística com ênfase em multimídia. Me formei no ano de 1999.

Jornal Mundo - Trabalha na área cinematográfica? Quantos curtas já produziu?

Dimitri Kozma - Na área cinematográfica, tenho 7 curtas produzidos e mais pelo menos 4 em fase de finalização.

Esta é uma das minhas áreas de trabalho. Também tenho minha empresa de comunicação interativa ( www.orbemidia.com ), onde trabalho com soluções para web, desenvolvimento de games, multimídia, vídeo institucional, etc, além disso, criamos uma confecção para venda de toy arts e estampas artísticas que desenvolvemos.

Jornal Mundo - É o primeiro com temática surrealista?

Dimitri Kozma - Sim. Também me dedico a outros gêneros, como drama e horror. Mas o surrealismo é um tema que acho fascinante. Explorar as partes escondidas de nossa mente.

Jornal Mundo - Por que a escolha do surrealismo no curta "Entre Espelhos e Sombras"?

Dimitri Kozma - Sempre fui fascinado pelo surrealismo e acho que precisamos explorá-lo melhor na área cinematográfica. Poucos se atreveram a trabalhar neste tema e tiveram seu trabalho reconhecido, como Buñuel, Jodorowsky e Lynch.
É uma temática de difícil digestão, pois força o espectador a fazer sua própria leitura. Fornecemos as ferramentas para que o espectador exercite sua capacidade de interpretação. Nada vem pré-digerido, o que dificulta o acesso ao público habitual acostumado com os filmes lineares e de fórmulas prontas.
Acho que podemos fazer com que essa capacidade de interpretação seja lapidada.

Jornal Mundo - Como surgiu a idéia do roteiro deste filme? Que proposta você quis passar?

Dimitri Kozma - Tudo começou com a idéia base onde um menor de rua entregava dinheiro ao motorista parado no sinal.
Sobre esta subversão da ordem natural das coisas como as conhecemos, comecei a escrever o roteiro de uma mulher em conflito, em busca de respostas para a própria vida. Adicionei também a sub-trama do homem em busca de Deus, que se passa em épocas diferentes e serve para amarrar a história.
Na verdade, acho importante que cada um tenha sua própria interpretação sobre o filme. Por isso fiz questão de adicionar na abertura, antes mesmo de qualquer imagem, a frase "Interprete", para que a pessoa se abra a esta experiência do auto-conhecimento ao assistir a um filme.

Jornal Mundo - Como o público e a crítica receberam este trabalho?

Dimitri Kozma - É o estilo que não tem meio termo. Ou se ama ou se odeia. Tenho sentido uma boa recepção por parte do público e crítica, principalmente os mais abertos a novas experiências.
Dificilmente o público acostumado com blockbusters e histórias mastigadas vai gostar do filme de primeira, é preciso estar pré-disposto a assistir algo diferente.
Recebi ótimas críticas positivas, que me fizeram perceber que estou no caminho certo. O filme foi feito com sinceridade, a mensagem toda está lá, um pouco codificada em alguns momentos, mas está lá para quem quiser decifrar. Muitos conseguiram, muitos tiveram suas próprias interpretações, o que eu acho ótimo, pois é esse o objetivo.
Gosto muito de conversar com as pessoas após uma seção do filme. Já vi pontos de vista que me surpreenderam.
Realmente estou muito feliz com o retorno que estamos tendo.

Jornal Mundo - Pretende lançar outros filmes neste estilo? Já tem algo em vista?

Dimitri Kozma - Sim. A idéia inicial é fazer uma trilogia. Cada um dos curtas abordando um tema, que se unem entre si. O segundo será mais crítico e trabalhando o surrealismo de forma mais ácida. Com mais humor e ironia.
O "Entre Espelhos e Sombras" acharam denso em alguns momentos, tem razão, a idéia era fazer um filme pesado, que gerasse certo incômodo, desconforto às vezes, apesar de eu achar que alguns momentos o humor também está presente.
Quero que este segundo trabalhe principalmente com outro enfoque, mais ácidez e ironia.

Jornal Mundo - Já pensou em fazer um longa-metragem surrealista?

Dimitri Kozma - É uma idéia para o futuro. É viável, mas para isso é preciso ter um ótimo roteiro, um tema que sustente um longa metragem sem perder o ritmo, pois o surrealismo é um tema que precisa manter o ritmo muito mais que qualquer outro gênero, ou corre o risco de ficar cansativo.

Já tenho alguns esboços para o projeto, mas antes disso, tenho outro longa para produzir, que será um drama com toques de cinema extremo.

Jornal Mundo - Você atua com produções independentes. Como conseguiu a verba para produzir "Entre Espelhos e Sombras"? Há muita dificuldade para conseguir recursos financeiros através de editais?

Dimitri Kozma - Nossos projetos são totalmente independentes e custeados com recursos próprios. Existe muito protecionismo e favorecimento em editais, o que dificulta quem quer trabalhar sério e honestamente. Sem contar a burocracia.
Partimos para a máxima de Glauber: "Uma câmera na mão e uma idéia na cabeça".
Se a gente for esperar, acabamos não realizando. Prefiro ter uma constância de trabalhos, mesmo que sejam com menos recursos, do que esperar anos parado, para poder viabilizar uma só idéia.
Claro que não descartamos os editais, mesmo porque é um motor fundamental
para a realização no Brasil, mas não quero ser escravo deles. Acho que é mais uma ferramenta.

O longa que iremos produzir também sofre de falta de verba. Ainda não posso falar muito sobre o projeto, mas será uma paulada naqueles que gastam fortunas para fazer um filme, inclusive usando recursos públicos e nem se preocupam com o retorno financeiro, pois o trabalho já foi subsidiado, ou seja, basta eles fazerem o filme, não importa se ninguém vai ver.
Com poucos recursos, pretendemos provar que é possível fazer um longa de qualidade. Com essas limitações, a máxima atenção deve ser dada ao roteiro.